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Tio Antunes — Contos de Erasmo Linhares — 1995

Tio Antunes

Tio Antunes é um conto bem característico de Erasmo Linhares, tendo como palco uma fazenda no tempo áureo da borracha.

Tio Antunes

A gente vivia perdida naquele mundão de Deus, distante de tudo. Estirão de mato, água, campo, céu e os bichos. Uma solidão sozinha. Dia entrando e saindo, mês e ano, sempre a mesma vida. Trabalho do primeiro ao último instante de sol. Mulher não havia, salvante a do Pedrão, curiboca magrela de botar barriga anual, mas fiel como todo ao seu homem.

Tio Antunes é que não se conformava. Uma obsessão. Cuidava que algum dia, saída não sei donde, haveria de aparecer alguma. Eram aqueles cuidados de exagero, dengues de moça, fricotes naquele homenzarrão sorvertido no meio do mato.

Domingo à tarde vestia o terno de brim, meia e sapato, chapéu-palhinha; aquela frioleira. Perfume. Sentava-se no meio do terreiro e ficava espiando o rio. Os olhos fixos no mundaréu, a modo de cobra encantando passarinho.

A gente, os outros homens — cinco ao todo — tinha valência nas bananeiras, mas tio Antunes não queria saber daquilo. Porcalhada, dizia. Conversa, casa de cupim só acaba com fogo grande. Doideira de mulher, é o que era. Constava que ele já tinha sido casado, no tempo do mata-onça, no Aripuanã. A mulher, uma velha muram feiticeira, morta na peste de varíola. Mas, dela ele nunca falava. Fazia segredo.

Tio Antunes era o chefe, a mando da companhia. Só companhia, porque do nome todo a gente não sabia não. O pagamento chegava todo fim de mês, num motor que ficava no porto apenas algumas horas, descarregando os mantimentos. A gente quase nem via, porque estava no trabalho danado de derrubar mato, tocar fogo e plantar capim. Um desperdício. As árvores graúdas caindo à força de machado e o fogo devorando tudo. Estirão de mato queimado, abrindo descampado, e o capim nascendo verdinho, jaraguá e colonião alto, que ia dar de comer ao gado. Currais. Fileira de cerca de perder de vista. Tio Antunes vexava os homens — O batelão não tarda a chegar trazendo os bois, os vaqueiros, o gerente.

E chegou, numa manhã enfarruscada. Baita de batelão, atracado num motor de dois passadiços. Na frente os bois amontoados, tocando os garranchos dos chifres, mugindo, os olhos de uma tristeza medonha, espiando o rio. Atrás os cavalos.

Os homens de pé no barranco, espiando a atracação. Tio Antunes na frente de todos, vestindo o terno de brim, chapéu na mão. Teso e sério como um patrão. Foi quando num portaló apareceu a cabeça loura de mulher. Sorriu. Tio Antunes tremeu, eu vi. Deu um passo de lado, enfiou a mão no bolso da calça. Roncou, um ronco baixo e fundo.

O gerente subiu a escada do barranco, pisando forte nas tábuas. Do lado a mulher. Mulherona, — calça comprida acochada, mostrando o roliço das coxas e o monturo das partes. Apertou a mão de tio Antunes e disse alguma coisa que ninguém ouviu, porque prestava atenção no desassossego do velho. Estava meio penso e a gente via que fazia força para não olhar a mulher, mas os olhos, jitinhos de apertados, entortavam na direção dela. E ela rindo, os beiços encarnados e os dentes numa fileira aprumada.

Depois do estrupício do desembarque dos bois e dos cavalos, os vaqueiros ficaram com a gente no barracão. Quatro cearenses e um gaúcho que não sabia dormir de rede. Gente falante, de fala esquisita, meio cantada, às vezes ligeira. O gerente e a mulher foram para a casa nova, construída por tio Antunes com a ajuda do Pedrão, já com todos os apetrechos que o motor tinha trazido na última viagem. Até geladeira.

Na janta o velho não falou com ninguém, a cabeça todo tempo arriada por cima do prato. Depois foi pro terreiro, ficou fumando, e ninguém pôde ver quando voltou pra dormir. Devia de ser muito tarde.

Com a chegada do pessoal novo, a vida da gente não mudou grandes coisas. Eles tratavam dos bois, andavam montados nos cavalos, construíram puxadas, cortavam capim. A gente continuava a cortar mato e a tocar fogo, plantar capim, porque a boiada ia aumentando. Toda quinzena chegava o batelão trazendo a zeburama. Tio Antunes era que ficava cada vez mais capiongo, a carona fechada, mudo. E também parece que mouco. Quando acontecia da mulher do gerente passar por perto dele, parava, fechava os olhos e baixava a cabeça, encalcando o queixo em cima do peito. Às vezes, deitado, resmungava e se tremia todo.

Uma noite um cearense disse que o velho estava variando. Tinha jeito. Deu de beber. Talagadas. Caneco de leite beirando. Mas não implicava com nada. Ficava quieto, fumando, os olhos parados como de morto. Cada vez mais calado. Só falava com o gerente, resmungando, cabeça baixa, envergonhado. A gente até que gostava. O gerente também não falava com ninguém, menos tio Antunes e o gaúcho, conterrâneo lá dele. Amizades. E mais a mulher do Pedrão, colocada de empregada na casa dele. Sem-vergonhice.

Quando o inverno acabou e o solão começou a secar o barro encharcado, o rio também foi baixando, dedinho de nada, vagarento, até mostrar a primeira ponta de praia. Branca lavada, beleza de ficar deitado, à noite, olhando o mundo.

Domingo, o sol ainda batendo de lado, o vento arrepiando o rio num banzeiro maneirinho, apareceram no terreiro, na frente dos homens, o gerente e a mulher. Quase nús, pernas branquelas. Os homens grelaram na mulher do gerente. Tiquinho de maiô. Dois pedaços de pano encarnado cobrindo as partes e os bicos dos peitos. Alvura.

Tio Antunes, sentado no banco fronteiro do barracão, o caneco entre as pernas, levantou-se num tropeliço. Amarelo. Jesus, disse bem alto. Magro, as pernonas soltas dentro da calça larga, penso. O gerente e a mulher desceram a escada do barranco, rumo do rio, e ele correu até à beirada. Ficou nesga de tempo, bambo. E correu de volta ao barracão. Acabado. Eu e Pedrão entramos atrás. E vimos.

Abriu a mala grande que nunca abria, remexeu uns panos e do fundo tirou um vestido branco comprido e um retrato velho, e, com a faca de migar tabaco, começou a estraçalhar tudo. Os olhos jitos, amarelos, medonhos. Pedrão ainda quis falar quando ele sentou no chão e começou a chorar. Um choro do fundo do peito, doído. Um homem daqueles feito criança.

Dias depois chegou o motor e levaram o velho. Mudo e mouco. Acabado. Pedrão e eu ajudamos a embarcar as coisas, menos a mala velha. Segredos, disse Pedrão. Amarrou e guardou na casa dele.

Os homens, os antigos, no barranco, olhando numa tristeza.

O gerente quis explicar — foi cachaça demais, ficou doido.

Conversa, doideira de mulher, isto sim. Um dia todo mundo por aqui vai acabar assim. Tivesse pelo menos uma.

Pedrão me olhou de esguelha.

Tio Antunes

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4 comentários em “Tio Antunes — Contos de Erasmo Linhares — 1995”

  1. Os contos de Erasmo tem essa atmosfera ao aprofundamento da visão à sensualidade e costumes dos personagens. E no final, a loucura resolve o destino dos que vivem isolados em seus mundos e pensamentos.
    Sempre surpreende.

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