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Um Corpo Santo e as serpentes na brisa leve e na água agitada

Corpo Santo

O texto “Um Corpo Santo e as serpentes na brisa leve e na água agitada” é um belo exemplo de como a literatura pode ser usada para retratar a realidade social e ambiental da Amazônia. Através de uma linguagem rica e poética, o autor nos convida a refletir sobre a vida dos ribeirinhos, a beleza da natureza e a importância da preservação ambiental e social.

Os lagos encantam, guardam segredos e possuem matérias-primas para histórias tristes e alegres, de resistências e bons sentimentos. Tenho viva a memória do Lago do Mamiá, lago encantado na minha imaginação. Faz dupla com o lago de Coari, mas não tem a mesma dimensão da bacia que represa e desemboca suas águas no Rio Solimões. Não tenho a história de sua ocupação, nem conhecimento de sua situação atual. Prendo-me aqui ao ciclo das águas altas e das vazantes que presenciei.

A vazante de 2023 mostra a situação dos ribeirinhos das cabeceiras dos lagos e mostram-nos o contraste entre do revezamento entre vazantes e enchentes. Como estaria o Lago do Mamiá, considerando o que ficou impresso na minha mente? Nas minhas navegações por lá, tenho flashes poéticos de suas margens, de barrancos altos avermelhados e das praias de areia branca, as pontas de terra firme que avançavam e recuavam para estabelecer grandes enseadas.

Não lamento o pequeno índice populacional que por lá presenciara. Gente moradora que ia ficando cada vez mais rara à medida que avançava, indo desde a boca do lago até o chavascal e, de lá, encontrando o fio ou rio de água do canal que o abastecia, vindo de longe, avolumando-se pelos igarapés de quase uma floresta intocável.

A navegação em tempo de enchente era pouca e nas vazantes quase nada. Além da produção de castanha, pouco por lá se produzia para vender, apenas farinha e banana. Lembro dos lotes de cupuaçu debaixo dos pés, aos pequenos montes, sem condições de comercialização.

O mistério do Lago veio-me ao conhecimento. Falava-se de um cemitério no alto rio que tinha um “corpo santo”, uma sepultura sempre florida e cheirosa. Não consegui detalhes ou informações mais precisas sobre essa história, que para mim, refletia o martírio de infâncias perdidas, naquelas condições precárias, sem facilidade para que seus pais navegassem até a cidade, vender seus produtos e procurar médicos, sobretudo no tempo da seca.

Gente humilde e gentil que sempre mencionava o “corpo santo” que estaria para além do chavascal, rumo às cabeceiras. Resolvemos conhecer pelo menos o chavascal. Este, todo alagado, pontilhado de árvores secas e galhos numerosos, retorcidos pelo vento e pelo tempo, mas que escondiam o canal do rio e os fossos por onde moravam as feras aquáticas.

Entramos no chavascal e nos perdemos. Naquela imensidão em labirintos, nosso barco barulhento avançava e dava marcha à ré, em manobras arriscadas, entre galhos e árvores secas, capins e moitas. Paramos para descansar e vimos uma pequena serpente estática, ao alto, imitando um galho fino seco, à espera de que algum pássaro viesse pousar e servir de refeição.

Nessa aventura, ficamos amedrontados por ter que passar a noite perdidos naquele labirinto. Depois de muito tentar, conseguimos uma saída! E deixamos para trás nossa curiosidade do “corpo santo”. Os moradores nos contaram dos esturros que a cobra-grande do chavascal deu na escuridão daquela noite, pois, ficara irritada com o barulho do motor do barco. Fato ou boato, acreditamos ter sido salvos da boca da cobra pela proteção do “corpo santo” de criança.

Créditos: Comunidade São José do Uruburetama no Lago do Mamiá

Nos últimos anos, a situação dos ribeirinhos, de boa parte das margens deste lago, mudou muito. Não posso garantir se ficou melhor para todos. Como as terras altas já tinham seus proprietários e alguns pequenos sítios de gente humilde, a abertura de uma estrada serviu também para desfrutar a beleza do lago e ir em busca do “corpo santo”.

Para os pequenos agricultores, facilitou a venda da produção agrícola. Houve loteamento dos terrenos e se encontrou um meio de garantir acesso à cidade, melhorar as condições de vida, aumentar o cuidado com a saúde das crianças e diminuir as mortes por falta de assistência. Quando chegará o tempo de o “corpo santo” ser a VIDA das crianças a brincar, a estudar e a crescer sem a violência da pobreza?

Nelson Peixoto

Nelson Peixoto

Autor do texto: Um Corpo Santo e as serpentes na brisa leve e na água agitada.

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2 comentários em “Um Corpo Santo e as serpentes na brisa leve e na água agitada”

  1. Ja ouvi falar e até li sobre o corpo santo em uma monografia que revela o conceito do Corpo Santo do Mamiá. A vida amazônica constrói esses lugares místicos que invocam a fé popular, pois, para muitos caboclos do interior da floresta, a fé é a sua tábua de salvação para se suprir nas horas da dificuldade da vida cotidiana regional. Muito importante ler e conhecer mais sobre o tema, pois a gente finda conhecendo muito mais sobre esse fenômeno do corpo santo, assim como da fé do caboclo no interior.

  2. Pingback: O boi de França e o boi de Ioiô – Cultura Coariense

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