Coari

Y U R U P A R I

Antônio Cantanhede

Na época em o Padre Samuel Fritz fundou a povoação de Alvelos, desaparecida e conhecida no passado por Freguesia Velha, já existiam essas três ilhinhas fronteiras à cidade de Coari, as quais tem sua história bem curiosa. São como sentinelas vigilante esses minúsculos torrões cobertos da mataria verdejante, separando a outrora chamada “Enseada Funda” do lago de Coari.

Naquela fase, quando por ali andaram os jesuítas espanhóis a alargar os domínios pátrios, a entrada do grande Lago se fazia por IRAPEÇÁUA, apesar de a verdadeira ser TUMASSÁUA.

Era crença, entre os naturais, que uma cobra grande habitando TUMASSÁUA impedia que por aí se fizesse franca navegação, e depois, essa passagem, quase obstruída por tão grande animal, não tinha profundidade bastante de modo a franquear o transito das embarcações que, ao tempo, eram os barcos de vela.

O monstro, descendo o Rio Solimões para bater-se com a rival, em Óbidos, no baixo Amazonas, deixou seu leito secular, do que resultou ficar aberto o canal próprio, fechando-se a entrada por IRAPEÇAUA. Realmente, ainda se notam vestígios, nas cheias do rio, dessa passagem.

Era nas três ilhinhas que os índios muras, descendo de Alvelos e de outras passagens se reuniam, anualmente, para a realização de festa da tribo.

Os varões iam à caça e à pesca, ficando as fêmeas a tratar do asseio do terreiro e do preparo das bebidas fermentadas.

No grande dia ali se encontravam todos, trazendo cada qual sua contribuição, de caça, de peixe ou de frutos, para a festança. Começavam ao amanhecer os preparativos para as cerimônias de hábito. Sobre o braseiro erguia-se o moquém. Tudo preparado, reuniam a boia em um só lugar no meio do terreiro. Escolhiam-se os guardas, que ficavam de vigia à comezaina.

Dentre os presentes, um havia sido indicado, no ano anterior, para fazer o assalto ao terreiro. Ele se usava gancho ou anzol.

Chegada a hora previamente combinada para o seu reaparecimento, os companheiros, fingindo-se surpresos e amedrontados, começavam a gesticular e a gritar, em volta dos assados que guardavam. O diabo saltava no meio da guarda que se encontrava em círculo apertado. Hediondo e ameaçador, despreza a resistência oposta pelos guardas, e ensaia já dentro do círculo a sua dança diabólica, cantando:

Yurupari Ichê-icou…

Yurupari Ichê-icou…

Ao que a multidão respondia, em coro:

Caruçá!… Curuçá!…

I-manou… Imanou…

Trava-se, então, a luta, entre assaltantes e os defensores do terreiro. Estes, para se livrarem do anzol preso à cauda do diabo, vão alargando o grande círculo. Satanás, aproveitando-se da folga, fisga uma das peças dos assados e sai arrastando-a para outro local, onde é recebido pelas mulheres, que, com grandes manifestações de entusiasmo, louvam a habilidade do demônio. E assim continua a peleja, até completa mudança dos assados para esse outro local, suposta escolha do assaltante.

Por último, este fisga um dos vigias, que é levado poro onde já se encontra a maioria dos convidados, a comer e a beber.

Saudação geral acolhe o vencedor e a sua vitória, e os gritos atroam nos ares:

Yurupari…

Yuruparí…

Yurupari…

Denominação por que ficaram sendo conhecidas essas três ilhinhas interessantes, fronteiras à cidade de Coari.

NOTA: — COARI: O que está num buraco — (Cuára-|-i)

TUMASSÁUA: — Entrada, foz do rio, quando pelo lado de baixo; quando pelo lado de cima a entrado, é IRAPEÇÁUA. YURUPARI

ICHEI – ICOU: Sou eu estou virando diabo.
CURUÇA ! CURUÇA!

17 de novembro de 1963

Outras histórias do Amazonas: contos, lendas e narrativas / Antônio Cantanhede

Em 2016, em conversa com o Pintor e Poeta José Coelho Maciel, ele me contava da obra do Antônio Cantanhede, que esteve em várias cidades do Amazonas pesquisando, sintetizando as estórias de cada cidade. Contudo, onde ele não encontrava as fontes, usava as lendas do local ou se criava uma que muitas vezes, passava a ser reproduzida e repassada entre as gerações como se fosse fato histórico. – Archipo Góes

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