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Do Ouro Vermelho ao Ouro Negro: o crescimento econômico de Coary – Parte 02

Ouro Negro

Archipo Góes

O artigo trata do crescimento da economia coariense, desde o princípio do comércio no século XX até a exploração do Ouro Negro na província de Urucu.

6. O Comércio e as instituições no começo do século XX

A. Um relatório sobre Coari de 1911

Ouro Negro

No relatório de 1911 publicado pelo Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, sobre a vila e comarca de Coari, podemos observar muitos fatos interessantes como:

a) Os 5 distritos são: a vila de Coary, Camará, Barro Alto, Camarão e Piorini. No entanto, surge uma dúvida em relação à localidade denominada Camarão, uma vez que não existem registros de uma comunidade com esse nome. Por dedução, podemos verificar que a vila de Fernandes, situada no rio Copéa, onde a família fundadora da localidade, os Fernandes, também era conhecida como Camarões devido à cor da pele. Portanto, é provável que o jornal estivesse se referindo à vila Fernandes.

b) A maioria da população ocupa-se na extração da goma elástica (borracha). A viação é feita por navegação a vapor e à vela. Sua população é de 14.000 almas com 311 eleitores. Nessa época as mulheres não votavam, somente os homens de posses.

c) Nessa época, o senhor Lucas d’Oliveira Pinheiro já ocupava o cargo de superintendente (prefeito) da vila de Coary, demonstrando sua habilidade como líder político ao comandar a política local por muitos anos. 

d) O Vigário era Victor Merino, que construiu a igreja de Santana e São Sebastião em 1910.

e) Um amplo comércio e instituições na sede da vila de Coary, incluindo padarias, correios, fábricas, engenhos (cachaça, mel, açúcar, rapadura), madeireiras ou serrarias, fotógrafos, sapateiro, advogados, escolas masculinas e femininas separadas, escola de música, uma escola na vila do Camará etc.

f) A presença de pessoas ilustres que habitavam a vila de Coary como: o fotografo, Olgar de Castro; o professor Benedicto Edelberto de Góes; o futuro desembargador, Leôncio Salignac; o criador do primeiro boi-bumbá de Coari, Luiz de França.

B. Um relatório sobre Coari de 1921

economia

No relatório de 1921 publicado pelo Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, sobre a vila e comarca de Coari, podemos observar muitos fatos interessantes como:

a) A vila de Coary exportava borracha, castanha-do-pará, cacau, peixe e óleo de copaíba.

b) No texto é colocado como fundadores de Coary os irmãos Guimarães: Antônio José Pereira Guimarães e Thomaz Pereira Guimarães, mas eles eram apenas os moradores de um sítio nas terras de Tauá-mirim na mudança da sede da freguesia de Alvelos para o local onde está a cidade, junto a foz do lago de Coari.

c) Existia na cidade uma associação da Banda Musical Coariense.

d) Depois de 10 anos o coronel Lucas Pinheiro ainda era o superintendente (prefeito) da vila de Coary.

e) Na cidade o comércio e serviços a vila já dispõe de alfaiates, carpinteiros, marceneiros, ferreiros, ourives, relojoaria, etc.

f) Agora o vigário é o padre Irineu Modesto Rebouças.

g) Na Educação, ainda vemos a presença do Professor Góes, que ainda aparece nessa lista até o ano de 1927.

C. Um relatório sobre Coari de 1931

economia

No relatório de 1931 publicado pelo Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, sobre a vila e comarca de Coari, podemos observar muitos fatos interessantes como:

a) A população baixa de 14.000 para 8.000 pessoas.

b) O senhor Edgard da Gama Rodrigues, futuro prefeito de Coari, estava como secretario na Junta de Alistamento Militar e como sucessor de tabelião.

c) A presença do futuro Desembargador André Vidal de Araújo como juiz da comarca.

d) Aparece um mercado público municipal.

e) Uma associação chamada Coary Sporting Club sobre a direção do Juiz Antônio Vidal de Araújo e do major da guarda nacional, Deolindo Alfredo Dantas.

7. O Segundo Ciclo da Borracha

O segundo ciclo da borracha teve início durante a Segunda Guerra Mundial, entre os anos de 1942 e 1945. A principal motivação para o retorno do financiamento da produção de borracha foi a invasão do Japão a outros países, uma vez que o país fazia parte do Eixo naquela guerra.

Em 1941, o Japão iniciou invasões em países como Singapura, Tailândia e Malásia, que eram os maiores produtores de látex na Ásia. Essas ações permitiram que o Japão assumisse o controle dos principais seringais, impossibilitando os Estados Unidos de utilizar esses recursos para produzir produtos derivados de borracha, como pneus, correias, mangueiras, sapatos e as peças de borracha utilizadas nos tanques de guerra, aviões e navios.

Após o afundamento de cinco navios da frota brasileira por submarinos de guerra alemães, resultando na perda trágica de mais de 600 vidas, a população brasileira manifestou sua profunda indignação através de intensos protestos. Essa reação popular levou o governo brasileiro a tomar a decisão de declarar guerra à Alemanha e à Itália no dia 22 de agosto de 1942.

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Os Estados Unidos fizeram um acordo com o Brasil para que todo o látex extraído em solo brasileiro fosse utilizado por eles durante a guerra. Esse acordo se chamou “Acordo de Washington”. E assim, por meio do Departamento de Guerra norte-americano, foi repassado ao Brasil mais de 100 milhões de dólares em troca de artigos necessários à sua defesa nacional, dentre eles, a borracha. Contudo, esse dinheiro não chegou nas mãos dos seringueiros, como assim havia sido planejado.

Em 1943, foi criado o SEMTA (Serviço Especial de Mobilização de Trabalhadores para a Amazônia), um órgão responsável por organizar um alistamento compulsório, focado principalmente nos nordestinos. Essa mobilização resultou na incorporação de mais de 100 mil homens conhecidos como “Soldados da Borracha”.

Os nordestinos eram forçados, ou de certa maneira, coagidos a se alistar e migrar para os seringais da Amazônia, da mesma forma que ocorreu no primeiro ciclo da borracha. Eles enfrentavam dificuldades devido à ausência de condições sanitárias adequadas nos seringais, ataques de animais selvagens e violência nas relações de trabalho.

economia

Muitos “Soldados da Borracha” chegaram à cidade de Coari para trabalhar nos seringais, porém, já chegavam endividados com os coronéis de barrancos. Desde o transporte até a alimentação, tudo era cobrado. O “sistema de aviamento” mantinha o trabalhador preso por meio de uma dívida interminável, que aumentava constantemente. Eles residiam na zona rural do município de Coari e tudo o que recebiam era cobrado com um valor cinco vezes maior do que o normal, incluindo alimentação, ferramentas, utensílios domésticos, roupas, armas, munição e remédios.

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O seringueiro coariense saía da sua locação logo nas primeiras horas da manhã, muitos começavam por volta das 3h. Ele utilizava uma poronga (lamparinas colocadas na cabeça) para iluminar o caminho e assim, conseguir extrair o látex das seringueiras. Durante a madrugada, a temperatura na floresta de Coari é bastante baixa, o que permite que o látex seja retirado sem coagular. Isso acontece porque, com o calor do dia, o látex endureceria mais rapidamente. Dessa forma, a seiva fluía rapidamente enquanto o seringueiro se apressava para alcançar outras árvores em sua trilha.

Ao finalizar, ele retornava pelo caminho inverso, recolhendo os potes contendo látex e despejando-os no balde. Por volta das 8 horas, o seringueiro chegava ao tapiri para fumar o látex e produzir a “péla” de borracha, que geralmente pesava 50 kg.

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Outros acordos entre Brasil e EUA forma formalizados para desenvolver a Amazônia, sendo os mais relevantes:

1) Na área da economia, aconteceu o financiamento da cadeia de produção da borracha através do Banco de Crédito da Borracha, criado em 9 de julho de 1942, pelo Decreto-Lei n.º 4.451.

No ano de 1950, passou a se chamar Banco de Crédito da Amazônia S.A., por uma decisão do governo federal e foi ampliado o financiamento para outras atividades produtivas, assumindo contornos pioneiros de banco regional misto.

No dia 25 de setembro de 1956 foi instalada a agência do Banco de Crédito da Amazônia S.A. na cidade de Coari.

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A partir de 1966, passou a se chamar de Banco da Amazônia — BASA. O banco assumiu o papel de agente financeiro da política do Governo Federal para o desenvolvimento da Amazônia Legal. Seu primeiro projeto de financiamento foi o da CAMTEL (Companhia Amazonense de Telecomunicações), onde foi instalado postos telefônicos nas cidades de Manacapuru, Itacoatiara, Parintins e Coari.

2) Na área da saúde, foi implantada os postos médicos do SESP (Serviço Especial de Saúde Pública) que foram instalados na maioria das cidades da Amazônia, sendo a primeira forma de atendimento em saúde de forma estruturada e sistemática na maioria das cidades da Amazônia;

Durante o segundo ciclo da borracha, a CAETA era o órgão responsável por recrutar os trabalhadores e transportá-los para o vale amazônico. Por sua vez, o SESP seria responsável por examinar os soldados da borracha que estivessem seguindo viagem para os seringais e fornecer assistência médica equivalente àquela oferecida às populações civis. No entanto, infelizmente, isso não aconteceu como deveria.

3) E por fim, na área de educação, houve a sensibilização dos superiores da ordem Redentorista da província de Sant´ Louis (EUA), para que houvesse o envio de missionários daquela localidade para evangelizar e educar os ribeirinhos da Amazônia. A solicitação foi aceita e as primeiras paróquias em que começaram o seu trabalho de evangelização foram as de Coari e Codajás.

Ouro Negro
Banco da Amazônia – Basa – Foto de 1968

A grande maioria dos “Soldados da Borracha” nunca retornou ao nordeste. O governo da época falhou em cumprir sua promessa de levar os soldados de volta para casa como heróis de guerra e garantir-lhes tratamento igual aos combatentes, incluindo aposentadoria.

O segundo ciclo da borracha na Amazônia chegou ao fim em 1945, logo após o término da Segunda Guerra Mundial. Isso ocorreu devido ao surgimento e predominância da borracha sintética no mercado internacional, o que desvalorizou o látex natural. Como resultado, a indústria da borracha amazônica entrou em declínio e continuou a definhar até o ano de 1960.

O escritor Francisco Vasconcelos, nascido em Coari e membro da Academia Amazonense de Letras, apresenta em seu livro de memórias intitulado “Coari — um retorno às origens”, uma descrição inusitada do declínio da atividade de aviamento da borracha e da castanha-do-pará na região do Solimões:

“Nos tempos de séria crise econômica que passou a região do Solimões produtora de castanha, em razão de injusto e retaliatório aviamento dos preços daquele produto, quando, ele também, sofreria as consequências de um irregular procedimento operacional bancário que, de maneira irresponsável, levou à bancarrota a praça de Coari”.

“À época, por ironia da vida, coube-me a difícil tarefa de conduzir as tentativas de “acertos de contas” com quantos inadimplentes se viam sufocados por vultosas dívidas, funcionário que era do Banco do Brasil e, por injunção profissional, no exercício da função de Gerente da Agência de Tefé, que tinha sob sua jurisdição o Município de Coari. Ah! Que tempos difíceis, para mim, aqueles, forçado a defrontar-me com os interesses e anseios de velhos colegas meus, os produtores de minha geração, ou de amigos e colegas de meu pai, que muitos ainda eram vivos”.

Leia mais em: O Soldado da Borracha – Francisco Vasconcelos

8. A era dourada da banana em Coari

Ouro Negro

Nas últimas décadas do século XX, o município de Coari desfrutou de um prestígio singular como o maior produtor de banana do estado do Amazonas. Esta fruta de polpa doce e sabor inconfundível não só se estabeleceu como um importante pilar econômico da cidade, mas também como um elemento central da identidade local. Porém, como em muitas histórias de sucesso, a ascensão da banana em Coari foi seguida por desafios significativos que culminaram em sua íngreme decadência.

Desde a década de 1970, o município de Coari era conhecido como o maior produtor de banana do Amazonas. O “Jornal do Comércio” em 1975, noticiava que o município de Coari era responsável pela oferta de 65% da banana comercializada junto a CEASA. No mês de agosto a produção de Coari foi de 759 toneladas de banana.

Ainda em 1975, a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) fez uma capacitação com os técnicos agrícolas da ACAR-AM (Associação de Credito e Assistência Rural do Amazonas) para instruir os agricultores de Coari sobre o Sistema de Produção da Banana e todas as recomendações técnicas.

Em 1979, foi noticiado também pelo Jornal do Comércio, que Coari era o maior produtor de banana do estado do Amazonas, sendo responsável por estabilizar o preço do devido a sua alta produção e manter qualidade do produto, apesar das dificuldades relacionadas ao transporte de Coari para Manaus.

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Durante a década de 1980, continuou o grande crescimento incentivado pelo grande mercado consumidor em Manaus que comprava tudo que era produzido. Em 1988, Coari enviou mais de um milhão de cachos de banana para a capital do estado.

Em 1989, houve um forte vínculo identitário da população com as atividades rurais, pois durante cerca de 15 anos, o Município de Coari era classificado como o maior produtor de banana do Estado do Amazonas, sendo essa fruta responsável por 2/3 da renda proveniente da atividade de agricultura, ou seja, era a principal fruta cultivada no Município.

Naquele mesmo ano, a cidade de Coari passava por grandes transformações em sua estrutura, enquanto mantinha sua atmosfera pacata, tranquila e ordeira. O prefeito da época era Evandro Aquino, um técnico agrícola de formação e funcionário da Emater. Para celebrar a abundante produção de banana na região, o prefeito decidiu criar a “Festa da Banana”, um evento anual que aconteceria na primeira quinzena de dezembro na recém-criada feira do produtor rural.

Ouro Negro
Jan Neves Nogueira – 1992

Se você quiser conhecer mais sobre a Festa da Banana, leia esse texto: Minhas Memórias da Festa da Banana – 1989 a 1991.

No final da década de 1990, os bananais do município de Coari começaram a ser dizimados. Um dos motivos para o declínio das áreas de plantação de banana na região de Coari, foi a entrada pela fronteira da Colômbia e Peru de uma praga chamada Sigatoka Negra, descoberta no final da década de 1990. Essa doença destruiu a maioria dos bananais da região do Solimões.

A produção primária de Coari, em que a banana em geral foi a cultura que ofereceu o maior rendimento médio, passou a sofrer um declínio em sua produção. As suas comunidades rurais produtoras de banana tiveram uma diminuição da área plantada de 6.140 hectares, em 1998, para 960 hectares, no ano de 2002.

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O Município de Coari, reconhecido como o maior produtor de banana do Estado do Amazonas, teve que recomeçar toda a cultura do plantio por meio de seleção de espécie clonadas, resistente a doença Sigatoka Negra.

9. O “Ouro Negro” em Coari: O conflito entre cobiça e desenvolvimento

A história da Petrobrás na Amazônia remonta a 1917, quando os exploradores do serviço mineralógico nacional perfuraram o primeiro poço na região. Em 1953, a Petrobrás foi fundada e, no ano seguinte, descobriu petróleo em três municípios do Amazonas, incluindo Coari. No entanto, os poços mostraram-se economicamente inviáveis.

O ano era 1986 e o Brasil estava deixando para trás duas décadas de ditadura. O presidente Tancredo Neves, eleito por meio da última eleição indireta realizada pelo Congresso Nacional, infelizmente faleceu antes de tomar posse em 21 de abril, sendo substituído pelo primeiro presidente José Sarney. Na prefeitura de Coari, o senhor Roberval Rodrigues da Silva exercia o mandato de prefeito com duração excepcional de 6 anos.

Ouro Negro
Em 1988 começa a operar a primeira estação de produção em Urucu

Em 12 de outubro de 1986, foi descoberto petróleo na província do rio Urucu, comprovando definitivamente a existência de petróleo comercial na Amazônia. A Sonda SM-1, responsável pela perfuração do poço exploratório número 1, também conhecido como RUC-1, encontrou a jazida a uma profundidade de 2.494 metros. A perfuração teve início em junho de 1986. Durante os primeiros três dias, a vazão inicial de óleo atingiu 950 barris por dia. Apenas 62 pessoas tiveram o privilégio de presenciar o momento em que o petróleo jorrou pela primeira vez na Amazônia.

O óleo de Urucu é reconhecido como um dos óleos de maior qualidade produzidos no país, devido à sua leveza. Essa característica facilita seu processamento nas refinarias e permite sua utilização na produção de gasolina, nafta petroquímica, óleo diesel e Gás Liquefeito de Petróleo (GLP).

Naquele momento, o poço estava mantendo uma vazão de 950 barris de óleo por dia, o que equivale a 151 metros cúbicos por dia. Além disso, o poço estava produzindo gás a uma taxa de 150 metros cúbicos por metro cúbico de óleo.

Em abril de 1987, o poço RUC-2 apresentou um promissor desempenho ao produzir gás e condensado de petróleo. Os resultados encorajadores levaram a Petrobrás a desenvolver um plano de ação ousado para a extração de petróleo em uma profundidade de 2500 metros.

Ouro Negro
Foto histórica com a primeira equipe em Urucu

Mas somente em 1988 o campo de Urucu começou a produzir petróleo. Desde então, a Petrobras tem enfrentado desafios logísticos para escoar a produção no Amazonas. No início, o petróleo era transportado em balsas pelo Rio Urucu até Coari e, em seguida, descia em navios para a Refinaria Isaac Sabbá (Reman), em Manaus.

Somente durante a estação chuvosa (inverno), o rio Urucu apresenta condições favoráveis para a navegação contínua. Por essa razão, em março de 1989, foi construído um oleoduto de 57 km para conectar a área produtora de urucu ao porto terminal nas margens do rio Tefé, possibilitando o escoamento contínuo ao longo de todo o ano.

Em 1992, um novo oleoduto entrou em operação, o que resultou no embarque exclusivo do petróleo pelo rio Tefé devido às dificuldades de navegação no Urucu durante o segundo semestre devido à vazante. Essa mudança resultou no aumento da produção. A partir desse momento, o município de Tefé passou a ser responsável pelo escoamento do petróleo de Coari, o que significava que Coari deixaria de receber a maior parte dos royalties da extração da produção de Urucu.

A construção do poliduto Urucu-Coari teve início em 1997, abrangendo uma extensão de 279 quilômetros, juntamente com a construção do terminal do Solimões (TSOL).

Em 1998, a produção de petróleo atingiu o patamar de 55 mil barris por dia com a conclusão do poliduto de Urucu até as margens do rio Solimões no TSOL. No entanto, o gás natural era separado e reinjetado nos poços em um volume de 10 milhões de metros cúbicos por dia, aguardando a finalização do Gasoduto Coari-Manaus.

A conclusão das obras deste poliduto resultou em diversos problemas ambientais, afetando negativamente a vida dos moradores de Coari. A obstrução dos igarapés causou dificuldades para as comunidades que dependem desses recursos naturais. Como resultado, a Petrobrás foi obrigada pela justiça a realizar reparos nos leitos dos igarapés e a compensar os danos causados às comunidades, especialmente à Vila Lira.

Ouro Negro
As primeiras amostras de óleo em Urucu já indicavam a boa qualidade do petróleo.

As obras do gasoduto Coari-Manaus tiveram início oficialmente em 1º de junho de 2006, após um extenso debate com a sociedade e um processo de licenciamento ambiental considerado exemplar em todo o país. Nessa ocasião, contou-se com a presença do presidente Luís Inácio Lula da Silva.

Foram realizadas obras de construção de um gasoduto com extensão de 661 quilômetros, abrangendo oito municípios: Coari, Codajás, Anori, Anamã, Caapiranga, Manacapuru, Iranduba e Manaus. Além disso, foi feita a instalação de cabeamento de fibra ótica, permitindo o controle das válvulas do escritório geral da Petrobrás no Rio de Janeiro.

O Gasoduto Coari-Manaus foi inaugurado no dia 26 de novembro de 2009 pela Petrobras, em uma cerimônia presidida pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Com o objetivo de transportar gás natural, o gasoduto possui capacidade inicial de 4,1 milhões de m³/dia e uma extensão de 661 km em sua linha tronco, que conecta as cidades de Coari e Manaus. Além disso, conta com sete ramais para fornecimento de gás às demais cidades atendidas pela rede.

A obra proporcionou a criação de cerca de 3.400 empregos diretos e 10 mil empregos indiretos. O gás natural foi utilizado para gerar energia elétrica nas termelétricas locais, abastecendo Manaus e os municípios por onde a tubulação passa, beneficiando aproximadamente 1,5 milhão de pessoas.

As obras do gasoduto Coari-Manaus tiveram diversas consequências negativas, tais como o crescimento desordenado devido à migração descontrolada de populações rurais para a cidade. Além disso, houve a incapacidade de absorver toda a mão de obra atraída para a região, resultando em um aumento da prostituição e da exploração sexual infantil. Adicionalmente, houve um aumento e agravamento de doenças sexualmente transmissíveis, bem como um aumento da criminalidade e da violência.

Archipo Góes
24 de setembro de 2023

Observação: Durante o texto, grafamos a palavra Coari com “Y” para indicar que a informação é anterior ao ano de 1932, conforme era comum na época.

Leia mais em:

O homem que escreveu sobre o palhaço e a rosa – 2018

Quebra-Queixo — Erasmo Linhares — 1999

Excelsa Castanheira – 06

Entrevista com Mara Alfrânia, Miss Coari 1990

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2 comentários em “Do Ouro Vermelho ao Ouro Negro: o crescimento econômico de Coary – Parte 02”

  1. Pingback: Prefeito de Coari preocupado com falta de escoamento para produção - 1980 – Cultura Coariense

  2. A economia de toda a região amazônica é marcada de modo histórico, pela exploração da borracha e da mão de obra nordestina. Observando os cartazes expostos no artigo, se tem uma dimensão de como o governo os atraiu aos seringais amazônicos. E muitos nunca mais retornaram para suas famílias.
    Camarão realmente era uma expressão a família Fernandes, em outras épocas da cidade de Coari; o cearense deixaria sua marca em todos os aspectos da nossa cultura: linguagem, culinária, lugares e na festa, como o boi-bumbá do cearense José Luiz de França, criador de um dos primeiros Bumbás de Coari, em décadas mais remotas.
    A produção de banana de Coari foi realmente explendida, para projetar o trabalhador rural aos entornos rurais.
    Muito bom o artigo, é a uma visão da extensão da economia da cidade na sua própria história.

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