Mura-Cão-Era – (Lenda Coariense)

Na lenda Mura-Cão-Era sintetizada por Antônio Cantanhede podemos observar a aniquilação de um povo indígena Mura que habitava originalmente na comunidade do Isidoro.

Extraído de SPIX & MARTIUS. 1981. Viagem pelo Brasil (1817-1820). Belo Horizonte, São Paulo: Itatiaia, EDUSP. (Volume 3)

Sempre se acreditou, em Coari, que o antigo nome de certo povoado, hoje conhecido por Isidoro, fora outrora MIRA-CÃO-ÉRA, mas, indubitavelmente, há engano nessa suposição, como veremos linhas a seguir.

Entre os primitivos habitantes dessa região existiu, entre outras, a tribo dos índios Muras, os quais, apesar de nômades eram muito trabalhadores, tendo do contribuído, grandemente, para a exploração de várias zonas desse imenso Estado, que é o Amazonas, e particularmente de Coari, onde eram procurados para prestar os seus serviços, ora como auxiliares no desbravamento das matas, ora como, pescadores e como serviçais domésticos.

Estavam eles já adaptados aos hábitos e costumes dos civilizados, sem perderem, entretanto, as suas crenças, abusões e temores.

Haviam-se instalado em uma das inúmeras enseadas, que bordam o formoso lago de Coari, e à sua margem direita, algumas milhas acima da aldeia Alvelos, onde tinham os espanhóis a sede das suas missões, do Rio Solimões.

Viviam felizes, esses indígenas, em nada desmerecendo o seu aldeamento, considerado dos mais populosos e prósperos, daquelas paragens.

Pelos brancos eram procurados amiudadas vezes, e com eles mantinham permuta dos gêneros de produção local, com as mercadorias que da capital traziam, em embarcações de vela ou a remos.

De uma feita, subira o Rio Solimões e entrara no Lago de Coari, uma dessas embarcações dos brancos, trazendo um dos tripulantes com febres.

Desprevenidos, foram os índios a bordo da pequena embarcação, onde se encontrava o doente. Iam ao comércio do costume, e ali demoraram algum tempo em contacto com os visitantes.

Dias depois da chegada da canoa um dos índios adoece. O chefe da expedição, inexperiente, explica, então, aos moradores do lugar, tratar-se da bexiga (varíola) que estava grassando no baixo Solimões.

Com a notícia, as malocas ficam em reboliço. Os índios não mais se sentem à vontade ali. Apavorados, começam a desertar. No seu modo de ver os brancos tinham sido portadores da morte.

De facto, poucos dias depois da estada dos visitantes entre eles, surgia, no local, o primeiro caso suspeito e dentro de pouco tempo a varíola campeava no aldeamento. A mortandade foi assustadora.

Aqueles que ainda não tinham contraído o mal, fugiam do contágio, deixando os doentes à mercê da sua má sorte. Em breve o local ficara ao abandono, transformado em morada dos mortos.

As aves de rapina revoluteavam por aqueles ermos, cobertos de cadáveres insepultos.

Algum tempo depois e quando já de volta da excursão ao alto Solimões, os brancos da canoa fatídica tornaram à aldeia dos Muras, onde encontraram, apenas, os vestígios da outrora próspera maloca.

Por toda parte iam topando com as ossadas descarnadas dos infelizes habitantes do local, dando motivo a que, ao depararem com esse tristíssimo espetáculo, exclamassem, cheios de surpresa e pesar: MURA-CÂO-ÉRA! MURA-CÃO-ÉRA! MURA-CÃO- ÉRA!

Denominação que ficou sendo dada, daí por diante, a esse local, mais tarde conhecido por Isidoro, em homenagem a um dos seus maiores ocupadores.

NOTA: Mira-cão-éra. Caveira, osso de gente, podendo significar cemitério. Mura-cão-éra. Ossos, ossadas dos Muras.

Fonte: Antônio Cantanhede — O Amazonas por dentro, contos, lendas e narrativas do Amazonas.

1 comentário em “Mura-Cão-Era – (Lenda Coariense)”

  1. O contexto dessa lenda tão antiga, a qual não a conhecia, apresenta o imaginário do combate e do ataque as epidemias que o branco europeu trouxe as etnias nativas. Não foi só pela espada e cruz que os nativos pereceram, mas pelo ataque biológico de vírus e bactérias também. Grande lenda resgatada da obra de Catanhaede.

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