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Eleitorado Macabro

Eleitorado Macabro

Antônio Cantanhede

Na narrativa Eleitorado Macabro de Antônio Cantanhede podemos ter um recorte sobre Coari no final do XIX e início do século XX.

Eleitorado Macabro

Situada à margem direita da Enseada Funda, tem a cidade de Coari a mirá-la, o belíssimo lago que lhe empresta o nome, e olha de esguelha para o impetuoso Solimões, que bem de perto lhe passa, ora asseado e liso como um lençol, ora com as suas águas, carregando balsedos e periantans.

Embastecido de castanhais imensos, com as suas artérias fluviais intumescidas do líquido barrento ou betuminoso, ricas do pescado precioso, com os seus seringais apojados do cobiçado látex, sempre foi Coari um dos municípios mais aquinhoados da fortuna e acariciado, com especial agrado, pelos poderes centrais, da capital baré, e por isso, em época não muito recuada, estadeava prédios de arquitetura e elegância compatíveis com os seus créditos de cortezã do famoso Solimões.


Como em todo o país, após 1889, a politicalha, ali, era desenfreada, não raro recorrendo os candidatos a cargos de eleição ao prestigio do cacete, apesar de já estarem amparados pelas penas Malat ou Perry, infatigáveis nos triunfos eleitorais. Entretanto, somente se empossavam nos cargos os eleitos depois dos acenos dos deuses do Olimpo, em Manaus.

Quantas vezes, nas ruas e praças dessa graciosa aglomeração humana, assistiram-se, entre risos e lágrimas, surras e mesmo assassinatos, em plena luz do dia, de criaturas indefesas, contra as quais se arreliava o chefe político que no momento, com as rédeas do poder às mãos, manejava o alfange da intolerância ? E ai daquele que tivesse o topete de acudir ao agredido…

Quando vitoriosos, solenizavam os vencedores da peleja, os triunfos eleitorais ou não, com recepções e com bailes, nos Paços do Conselho, e, se pelo decorrer dos festejos o adversário se atrevia a por ali passar bem perto, os disparos de armas de fogo eram inevitáveis, as correrias infalíveis, e os ferimentos, eloquentes atestados de boas pontarias.

Em certa fase de seu florescimento, Coari assistiu, durante anos a fio, à luta partidária travada entre o Coronel Gaudêncio e o Coronel Guimarães, duas personalidades de grande destaque no cenário político local, com reflexos na capital do Estado. Ambos grandes proprietários, peritos fazedores de eleições e não menores cometedores de fantásticas represálias, quase sempre regadas com o sangue de inocentes.


Cortada a cidade a meio, por uma depressão do terreno, que fora outrora leito do igarapé S. Pedro, Coari consta ainda de dois bairros, Santana e S. Sebastião, do que resultava, na época das enchentes, o Solimões a insinuar-se pela Enseada Funda e o Lago de Coari a se opor a essa conquista, as águas, em conúbio forçado, subirem tanto, que somente de canoa, os moradores desta banda podiam transportar-se para aquela, enquanto que, de verão, a passagem se fazia a pé enxuto.

Presentemente, essa passagem é feita por magnifica ponte de madeira sobre arcadas de alvenaria. Isto talvez contribuísse para mais se extremarem os adversários políticos, e mais se acentuar a animosidade partidária. O morador da banda de cá, quase sempre (e as exceções eram raras) acompanhava ao chefe deste lado, o mesmo sucedendo aos da banda de lá. Até mesmo os galináceos, por não se aperceberem das lindes fronteiriças das hostes adversárias, eram sacrificados a pedradas, quando, cacarejando. descuidados, palmilhavam o lado oposto aquele onde residia o chefe político de seu dono!

Por fim, como sempre tem sucedido aos heróis desta gleba cunhã, lá se foram eles, os dois chefes a que nos vimos referindo, para o eterno julgamento, no dia de juízo. Um deles, após uma apoplexia cerebral. Embarcou dali mesmo. O outro, fez-se de rumo para a eternidade, da cidade de Manaus, para onde fora no cumprimento de pena por crime de homicídio.


Com o advento de 1930, tudo mudou neste Brasil imenso, e Coari, de olhos abertos, pleiteou alguma coisa para a sua restauração, para o seu engrandecimento. Tudo obteve. Construção de bons prédios e outros melhoramentos de vulto foram ali realizados. No cemitério municipal, erigida uma capelinha muito alva, e murada a parte fronteira, em solene procissão fora para ali conduzida, e entronizada em nicho artístico, a imagem de Santa Terezinha do Menino Jesus.


Realizaram-se es primeiras eleições pelo sistema moderno. O voto secreto operou seus milagres nesse irrequieto município. O candidato eleito para lhe dirigir os destinos, no início do triênio constitucional, teve a surpresa de ver anulada a eleição por haver o poder eleitoral superior verificado fraudes praticadas pelos mesários avessos. Entretanto, foi bem negociada a votação. Compraram-se votos por preços animadores. O pleito eleitoral foi renhido. Iniciados os trabalhos às nove horas do dia consagrado a tal fim, prolongaram-se pela noite a dentro e manhã subsequente.


Altas horas da noite, depois de terem sufragado o candidato de sua predileção, dois dos modernos eleitores residentes nos subúrbios da cidade, fizeram-se de remo, aos seus penates. Discutiam, de caminho, vantagens e desvantagens do novo sistema eleitoral.

Este, achava-o excelente. Passara quase dois dias em convívio com os brancos da cidade, discutindo e ouvindo discutir o moderno processo eleitoral, para ele próprio incompreensível, tendo sido servido à mesa das refeições, pela família do seu candidato desse dia. O outro, homem do trabalho, mostrava-se saudoso dos tempos que se foram. Ora, dizia este, antigamente não se perdia tanto tempo para votar. Somente os desocupados, os que vinham pela boia se demoravam na cidade, enquanto que os que tinham suas ocupações, depois de assinarem a papelada, quando assinavam, punham-se ao fresco, e iam tratar dos seus interesses, deixando a política para os políticos.


A Lua cheia, no alto da curva azul esbranquiçada do firmamento, como uma ficha de marfim, alvíssima, no meio do pano verde da roleta da vida, clareando a estrada sinuosa e cheia de altos e baixos, guiava os passos dos dois retardatários eleitores, deixando-os lobrigar à distância, nos carreiros multívios, pausados ou perlongando, os bacuraus assustadiços.

Ao defrontarem eles o portão principal do cemitério, bem em frente ao Santo Cruzeiro, persignando-se, iam dar começo à oração costumeira, quando zoada anormal lhes aguçou a atenção. Partia do Campo Santo. Escutaram. Discutiam, lá dentro do cemitério, acaloradamente. Apuraram os ouvidos e a vista. Entre o Cruzeiro e a capelinha recém-inaugurados divisaram, então, grande mesa, ladeada de muitos vultos assentados, e a cujas cabeceiras dois deles, arrogantes, invectivavam-se. Puderam, apesar de muito amedrontados, perceber o final do injurioso diálogo:

— Jamais poria em paralelo ao meu, o seu sonhado prestígio político, dizia um deles.
— “Mesmo porque, interrompera o outro, seria isso absurdo… Seu prestígio político?!…” E uma gargalhada rouquenha, deste, estrondeara no silêncio sepulcral.

— “Fosse eu o candidato de hoje”…

— “Seria derrotado, na certa. Imaginemos que a eleição aqui se realizasse… Experimente. Faça a chamada dos seus eleitores. Para nós, daqui, ainda não é lei o voto secreto. Aqui vencerá quem amigos tiver”.

— “Meus amigos, é chegado o momento de provar ao adversário que, realmente, sou o mais estimado dos chefes políticos de minha terra natal. Sufragai o meu nome, e”…

— “Para dentro, todos… e cada qual para a sua cova. Não sendo eu candidato, não há, neste instante, necessidade de eleitores aqui”.

Como se tocados por corrente elétrica, todos os presentes acompanhando o gesto do chefe que por último timo falara, puseram-se de pé.

Um matracar de ossos, alvos alguns, outros amarelados, formando esqueletos de vários tamanhos, foram-se esgueirando e desaparecendo, pelos lados e pelos fundos da capelinha de Santa Terezinha do Menino Jesus. Somente o contendor derrotado aí ficara.

De olhos esbugalhados e a suar em bicas, os dois modernos eleitores, um deles antigo adepto do contendor sepulcral vitorioso, com os corações a saltar como trens velhos em mal cuidada ferrovia, entreolharam-se, aturdidos.

Meio repostos do susto, e já distante daquela paragem, comentaram medrosos:

— Viu você, homem? até depois de mortos ainda brigam por causa de eleição…

— E eram políticos, aqueles?

— Se eram… Não os reconheceu, pelos gestos? Seu Godêncio e o Guimarães., mas, seu Godêncio ganhou.

Eleitorado Macabro – Antônio Cantanhede

In: O Amazonas por Dentro


Leia mais em:

Gregário, o Mateiro – 05

Cobra Grande do Lago de Coari, no rio Amazonas — 2021

A Lenda Coariense do Caripira – 004

A Cobra Grande é lenda?

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2 comentários em “Eleitorado Macabro”

  1. Texto bem humorado de Antônio Cantanhede!
    Não se encontra mais literatura dessa grandeza, estamos carentes. Mesmo satirizando as rinhas e concorrências políticas do início do século, da para se ver o desenho da Coari daquela época! Dois bairros principais que divisavam a influência de cada líder político, o de Santana (hoje Tauá Mirim), e o São Sebastião, hoje o Centro da cidade. A clássica ponte de madeira que atravessava o outrora e extinto igarapé de São Pedro, e por fim, o campo santo de Santa Terezinha, cemitério mais antigo da cidade que provavelmente tenha mais de 130 anos de uso no bairro de Tauá Mirim. Cada vez mais que a gente se debruça sobre essa prancheta do tempo se encontra desenhada as crônicas mais ambíguas do passado da cidade de Coari.

  2. Pingback: De como Stalin Apareceu em Coari – Cultura Coariense

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