Coari quase foi bombardeada pelos russos em 1961

Ribamar Bessa Freire

Equívoco ou mutreta? Em Coari, tudo é possível, inclusive urubu voar de costas. Pouca gente sabe, mas a brava e indômita cidade de Coari quase foi bombardeada pelos russos em 1961. Naquela ocasião, podia ter desaparecido do mapa, para gáudio e júbilo dos moradores invejosos de Tefé e Manacapuru que, dessa forma, lhe roubariam o título de “Pérola do Solimões”. Mas isso eu conto mais adiante, se houver tempo e espaço.

O papaizinho aqui conhece Coari muito bem, pois lá morou durante quatro anos, internado no seminário redentorista. Estava lá em 1961. Nesse ano, os americanos treinados pela CIA, com apoio da força aérea dos Estados Unidos, invadiram Cuba desembarcando na Baía dos Porcos. Levaram porrada dos cubanos. Mas o ataque serviu de pretexto para a União Soviética instalar mísseis nucleares na ilha de Fidel.

O bombardeio

Na cidade de Coari não se falava de outra coisa. Os padres redentoristas, responsáveis pela Paróquia de Sant´Ana e pelo seminário, eram todos norte-americanos e faziam sermões nos quais esbravejavam contra o comunismo. Foi aí que se espalhou a notícia de que Coari seria bombardeada pelos russos. Conto como foi.

A rotina do seminário nos obrigava a acordar diariamente às cinco da madrugada. Tínhamos meia hora para tomar banho e escovar os dentes. Às 5h30 subíamos para a capela. O padre diretor discorria sobre um tema e nos deixava meditando, em silêncio, durante quinze minutos. Depois, assistíamos missa e descíamos para tomar café.

Um belo dia, no meio da crise de Cuba, o padre Francis Hirsch entrou na capela aos prantos, na hora da meditação. Contou que barcos de guerra russos, fortemente armados, estavam subindo o rio Solimões e iam bombardear Coari. A resistência estava sendo organizada pelo prefeito Alexandre Montoril, um dentista honrado. O padre-diretor nos deu, então, duas opções: “Ou ficar em Coari com os padres americanos, defendendo a sagrada eucaristia, ou arrumar as malas e fugir ao encontro da família, em Manaus”.

Todos nós entramos em pânico. Tínhamos pouco tempo para decidir. Confesso que fiquei indeciso, mudando de opinião a cada segundo. Havia momentos em que minha resposta era ficar em Coari, enfrentar os russos e me tornar um mártir da Eucaristia, como São Tarcísio, morto pelos centuriões romanos com a hóstia consagrada dentro de sua mão fechada, não deixando que fosse profanada. São Ribamar, virgem e mártir.

No momento seguinte, suando frio, recuava, achando que não era justo morrer tão jovem, com apenas treze anos de idade, sem ter saboreado a vida. Queria ser santo sim, mas meu modelo de santidade era Santo Agostinho, boêmio, festeiro, mulherengo e pecador, que se converteu já velho, depois de haver pintado os canecos, e se tornou santo, graças às orações de sua mãe, Mônica, que também virou santa. Assim, até eu!

Ajoelhado à minha direita, o meu melhor amigo, Geraldo Cocó, indagava com a voz trêmula: “A gente fica e morre, ou a gente vai embora e vive? ”. Cachimbinho, um paraense de Óbidos, encagaçado, chorava copiosamente: “Não quero morrer”. Quinze minutos depois, que duraram uma eternidade, o padre Francis retornou dizendo: “Não tem barco russo. Inventei essa história só para testar a fé de vocês”. Pequepei em pensamento, mandando o padre Francis pra PQP.

Pérola do Solimões

A história do quase-bombardeio de Coari quase entra no hino oficial da cidade, com música do padre Antônio e letra de dona Higina, a poeta de Trocari. Dona Higina nunca falava, declamava. Não dava bom dia, desejava alvíssaras. Um dia, visitando a biblioteca do seminário, perguntou assim como quem não quer nada: “Oh, é aqui que vindes sorver, qual sagazes abelhas, o mel da inteligência? ”

Se ela era assim, coloquialmente, imaginem escrevendo o hino da cidade. A letra descreve o coariense como “gente forte e viril, sentinela da liberdade”, proclama que Coari é a pérola do Solimões e exalta, no estribilho: “Oh Coari, oh Coari, nossa cidade em flor / São teus campos perfumados, são tuas praias um esplendor / Oh Coari, Oh Coari, não tens rival / nesse rio coloooooooossal”.

Fonte: Professor Bessa Freire – http://www.taquiprati.com.br

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