Um Vulto na História e Memória de Coari-AM – 1927

O jovem Herbert Lessa de Azevedo, prefeito da Vila de Coari, morto no dia 23 de junho de 1927, era véspera de São João.

Vila de Coari, 23 de junho de 1927

Ninguém nem sonhava que naquele ano, naquele mês, e, que naquele dia 23, a Villa de Coary viveria um episódio inacreditável. E tudo aconteceria, injustamente, no momento em que a cidade se recompunha de uma tragédia fluvial. Era mês de junho, e em junho, pelos interiores do Amazonas, o povo festeja com muita festa, fogueira e, muitas comidas típicas, e bebidas, a todos os santos da época: Antônio, João e Pedro!

Naquele mês, a Vila tinha muito a comemorar, inclusive, já havia rumores de que a sonhada emancipação política, a status e condição de cidade, já era debatida na Câmara de Manaus. Os coarienses da Vila, não viam a hora de serem totalmente independentes da velha Ega (Tefé). Mas enfim, era hora de se festejar, pois o novo prefeito da localidade tinha feito, nos últimos meses, o melhor que se podia aquela população.

Prédio da Prefeitura Municipal da Vila de Coari.

O jovem prefeito Herbert Lessa de Azevedo, tentando fugir de seus assassinos, se abrigou no forro do mesmo, mas foi atingido com os disparos, pois seus assassinos dispararam contra o teto. Hoje, no local do antigo prédio está localizada a Agência do Banco Bradesco daquela cidade. Nos anos de 1920, a principal Praça da Villa se chamava “15 de Novembro”.

Até o Cemitério de Santa Terezinha havia recebido muitas bem feitorias. Foi limpo e ampliado! O povo não entendeu muito bem o porquê, pois morria pouca gente até então…

Toda a orla da Vila tinha sido limpa, capinada, organizada e os prédios públicos, até pintura nova receberam! A grande promessa do novo prefeito, era a de se instalar a luz elétrica pelas ruas principais, as da Praça, do Porto e das proximidades da Matriz de Santana.

O novo prefeito tinha sido destacado de Parintins a Coari, mas não o era filho da velha Tupinambarana. Apesar de muitos terem pensado assim. Os pais dele se conheceram e se casaram no início do século XX, em Manaus.

Herbert Lessa de Azevedo era filho de Raul de Azevedo e Julieta Lessa. Nasceu em 1902 em Manaus, no dia 3 de maio. Seu pai era nordestino, homem letrado e influente no cenário da política do Amazonas, e até do Brasil. Raul gozava de grande prestígio político, pois havia sido secretário de Estado no governo, na gestão do coariense Silvério Nery, e de outros governadores. Graças a ele e a Herbert, Parintins recebeu luz elétrica em 1926, e o mesmo pretendia fazer a Coari, ainda naquele ano de 1927.

Os Lessas de Azevedo moravam na capital do Estado, próximo a igreja dos Remédios, na esquina da rua dos Barés com a Joaquim Nabuco. Bem ali, no ano de 1922, Herbert se formara em Direito, na faculdade daquela Praça. Foi sempre um rapaz de finíssimo trato, educado, esplêndido orador, falava somente o que cabia. Foi preparado pelo pai para seguir seus passos na literatura, cultura e na política do Estado. Mas Herbert, naturalmente, herdara o talento à diplomacia e cultura paterna.

Ele também foi agente dos Correios no Amazonas e Acre, seu pai era o superintendente à época. Então, o zelo dado por parte do pai, a sua educação, carreira, e integridade, eram visíveis aos olhos de todos! Todavia, esse amparo paterno, extremo, tinha a ver com o precoce falecimento da esposa, D. Julieta. Raul teve que ser mesmo zeloso pelo recém-nascido Herbert.

Entretanto, se casaria novamente, e Herbert logo ganharia duas irmãs. Mas Raul, silenciosamente, guardava a memória de Julieta com muitas saudades, assim, aquele filho, fruto de seu primeiro casamento, era um elo muito forte entre a história vivida com sua falecida e amada esposa. Raul e Julieta viveram sua história de amor aos moldes da Manaus do final do século XIX ao início do novo ano de 1900.

A rua Ruy Barbosa nos anos de 1920 na Villa de Coary.

O que aconteceu naquele dia 23 de junho, na praça da Villa, só foi melhor compreendido semanas depois, quando tudo começou a ser esclarecido.

Mas o fato, repentinamente, ocorreu numa manhã de quinta-feira, por volta das dez e meia. Tudo foi visto e guardado na memória, pelas crianças, as quais, inocentemente, brincavam nos galhos das frondosas mangueiras da rua Ruy Barbosa, de fronte o sobrado do Major Deolindo Dantas.

O barco coberto de palha branca, vindo do Apaurá, encostou cedo no porto da ponte de São Pedro. Um dos caboclos saiu e foi a padaria do padeiro Alves (hoje a Santana). Foi comprar pães para tomarem café. No meio da manhã, todos que estavam no barco, desembarcaram, armados, em direção à prefeitura (onde hoje está a agência do Bradesco), a esquina da 15 de Novembro. A partir daí somente tiros, muitos tiros foram ouvidos!

As crianças que estavam brincando entre os galhos das mangueiras, acreditando que já havia começado a folgança junina, gritaram alegremente: Viva São João! Viva São João!

Não demorou muito para que as mães, correndo desesperadas, pela Ruy Barbosa, gritassem para curuminzada: Passa pra dentro de casa menino, desce daí pelo amor de Deus! O major Deolindo mandou trancar todas as portas do sobrado, e se armou todo, usando suas janelas do segundo piso como mirante, ficou procurando entender o que se passava na praça.

Depois que todo o alvoroço cessou, e o silêncio pós Bang Bang, retornou aos ares pacatos da Villa, o escritor paraense, Abguar Bastos, que estava na Villa, como escrivão do fórum, e amigo de Herbert, junto com várias pessoas, resgatou o jovem prefeito, banhado em sangue. O sentaram numa cadeira e o carregaram pela ponte do São Pedro, o corpo quase morto. O levaram até sua casa a rua Ruy Barbosa! Todos os esforços foram feitos para tentar mantê-lo vivo até o momento de embarcá-lo e, levá-lo a Manaus. Todavia, os esforços foram em vão, os ferimentos foram mortais, e nada a mais pôde ser feito para salvá-lo.

Tudo ocorreu por conta de um morador da comunidade do Apaurá que, foi preso, a mando do promotor, acusado de invasão de terras. Herbert nada tinha a ver com a situação. Os caboclos vieram de lá, tudo “de armado”, vieram tirar satisfação por causa da prisão, que julgaram ser injusta. Herbert estava no lugar certo, mas na hora errada…

Ele agonizou e faleceu no final da tarde daquele dia 23 de junho, aos 25 anos de idade. A noite, seu corpo foi limpo e vestido em seu terno azul-marinho, o qual mais gostava de usar em ocasiões especiais. Durante toda aquela noite e madrugada, foi velado pelos habitantes da Vila, pelos olhares piedosos dos humildes, dos amigos e de outras autoridades da localidade! Não faltava quem não se derretia em lágrimas por trágico fim dado a vida daquele rapaz, que agora, deixaria “órfão” seu pai, em Manaus!

No dia de são João, naquele ano de 1927, não teve fogueira, não teve festa, não teve comemoração alguma na Vila de Coari. Todo o povo foi ao cemitério de Santa Terezinha, acompanhar o sepultamento do rapaz tão moço, e já finado! Seu pai, junto com uma de suas irmãs, só puderam ir a Vila no dia 2 de novembro daquele ano. Era dia dos finados. Dizem os mais antigos, que, foi uma das cenas mais tristes já ocorrida no cenário do cemitério daquele lugar quando Raul avistou o túmulo do filho. O choro do escritor, político e poeta, comoveu as pessoas que ali se faziam presentes. Foi um momento extremamente depressivo…. No momento do drama, até o sino da catedral foi tocado, do cemitério se ouvia.

O centenário cemitério de Santa Terezinha de Coari, ampliado e organizado em 1927 pelo prefeito Herbert Lessa de Azevedo. Por ironia do destino, após as bem feitorias, seria um dos primeiros a ser sepultado na necrópole naquele ano. (Foto do ano de 2014)

Ele tocou com as duas mãos sobre o mármore, abaixou a cabeça, e começou a chorar. Era por volta de 16 horas e o sol começava a baixar. O choro de Raul foi a única coisa ouvida nos ares do Santa Terezinha! Junto, os sinos da Matriz. Parecia que havia perdido tudo em sua vida. Mesmo amparado pela filha (Marilda Lessa de Azevedo – irmã de Herbert, e também filha de sua amada Julieta Lessa), a seu lado, todo tempo, ele dava a impressão de que sozinho estava! Seu rosto ficou desfigurado, molhado pelo suor e lágrimas que não paravam de derramar. Outras autoridades tiveram que tomar a iniciativa de ampará-lo, e retiraram-no dali.

A tampa de mármore, enviada a Coari por Raul de Azevedo, pai de Herbert Lessa, em 1927. (Foto de 2014)

Antes de ir a Coari, Raul enviou o mármore que até hoje, tampa o túmulo do filho. Por certo período, alguns diziam que havia rancor nas palavras ali grafadas, em relação ao povo da antiga Villa. Ele escreveu:  “Morreu sozinho, lutando contra uma horda de assassinos”. As palavras davam a impressão de que o povo da Villa correu e deixou o prefeito só! A ser abatido…. Mas, tempos depois, ficou explícito, com a chegada de Raul a Coari, que a palavra “sozinho”, descrita na fria pedra do mármore, se referia ao próprio pai, por não está perto do seu primogênito a hora que mais precisava.

Raul se auto culpava. Ao povo da Villa, ele foi muito grato, pela bondade, amparo e toda dedicação prestadas ao corpo de seu amado filho, por ocasião do velório e sepultamento! O túmulo de Herbert sempre esteve coberto de velas e flores. Então, o povo da antiga Vila de Coari, percebeu, através do choro e da voz daquele pai, o quanto amava aquele filho. Para Raul, era um misto de todas as lembranças vivas de sua amada Julieta. A morte do fruto do amor.

E por se falar em escritor, não fazia duas semanas que, Mário de Andrade havia passado pela Vila de Coari. No dia de são João, naquele ano, Mário descobriria a dança da Ciranda em Caiçara (Esse é o antigo nome da cidade de Alvarães).

Sepultado no dia 24 de junho de 1927, descansa em paz Herbert Lessa de Azevedo, alguns passos atrás da Capela de Santa Terezinha, no cemitério de mesmo nome, em Coari-Am. (Foto de 2014)

Referencial

Anísio Jobim / Coary, Panoramas Amazônicos Centro Cultural dos Povos da Amazônia

Blog – literaturarogelsamuel.blogspot.com In Memoriam, Herbert Lessa de Azevedo

História oral do município de Coari-Am Voz de seu Raimundo Martins de Souza

Fotos de época, obra de Anísio Jobim, 1933

Fotos em cores, de Cláudia Alfaia

Fonte: Eros Divino Maia Alfaia – Blog: A Missão

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