Visita do Poeta Mário de Andrade à Vila de Coari – 1927

Archipo Góes

 

Será que o Romance Macunaíma teve inspiração em Coari ?

 

 

Mário de Andrade – Ponte em Coari – 11 de junho de 1927

11 de junho – De madrugada nos envolveu uma névoa tamanha que o vaticano parou. Só andou já de manhã, enveredando para a boca do Mamiá, onde tinha uma fazenda simpática, bem pitoresca, grande apuro de arrumação. O dono nem aparecia mais, leproso.

A mulher, também leprosa, vinha conosco a bordo, só agora sabemos. Os filhos também leprosos. Deu um aspecto absolutamente tétrico na paisagem, nem se pensou em descer, está claro. No entanto, não tem pouso em que não desçamos. E depois são os banhos de cachaça pra derrubar a carrapatagem mucuim. Ali pelo meio-dia descemos na bonitinha vila de Coari, uma vontade de desafogar. Tudo era bonito, tudo era são, a ponte gentil.

Compramos castanhas, comemos castanhas em quantidade. Calor. Partimos rebocando um canoão e o tal vendedor de fruta, negro, que faz parar os navios da Amazon River com um canhãozinho. Hoje conversamos bastante com o gênio de bordo. A princípio imaginamos que era maluco, mas não era não, era gênio, todos afirmam. Parece também que é vigarista, mas não terei a experiência. É assombroso que um vaticano [1] destamanho pare num lugarejo chamado São Luís só pra entregar uma carta. Não fiz trocadilho não: é o tamanho do navio, mesmo.

1º de julho – Manhã de chuva. Parada pra lenha em São Sebastião. Passa uma lancha com soldadesca, indo pra Coari, onde mataram o prefeito. (Andrade, 1976)

Coari, 11 de junho de 1927/ Manacá Trombeta e Balança apelidos das viajantes: Olívia Guedes Penteado, Dulce do Amaral Pinto e Margarida Guedes Nogueira. (Notação no verso).

[1] O barco Vaticano São Salvador, da empresa de navegação Amazon River que fazia linha para Iquitos, no Peru.

 

Fonte: Nunca Mais Coari: a fuga dos Jurimáguas – Archipo Góes

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