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Crônica de um quase Natal – Francisco Vasconcelos

Nunca me foi possível esquecer o menino, cujo desejo acompanhei de perto naquele Natal que, na verdade, não chegou a existir para ele. E sempre que sinto aproximar-se a grande festa, quando os corações se impregnam da suave e divina mensagem de amor e de esperança que o evento, inevitavelmente irradia, lembro-me dele, incontido na sua alegria, a nutrir, ternamente, a certeza do brinquedo há muito desejado.

Naquele ano as coisas lhe ocorreriam de forma diferente. E certo estava o menino de que, ao contrário de quantos já haviam passado, algo mais haveria de ficar-lhe, e não apenas as simples desculpas que lhe davam costumeiramente, na tentativa de justificar a impossibilidade de torná-lo partícipe de um mundo cujas emoções jamais chegara a experimentar inteiramente.

Custara-lhe, todavia, aquela quase convicção, o sacrifício de muita renúncia. Mas valia a pena. Valia a alegria o ser compensado, na sempre esperada realidade da posse de um brinquedo diferente dos que habitualmente possuía, dentre os quais um carrinho de madeira por ele mesmo construído, que rodando sobre tampas de latas de manteiga, constituía seu maior patrimônio, principalmente depois que conseguira pintá-lo de azul. Era nele que transportava o material com que brincava de construir casas que a engenharia de um colega projetava.

Que bom engenheiro não seria o colega do menino de quem ora recordo. Nada lhe era mais importante do que passar horas inteiras a observar o pai, exímio pedreiro, a colocar de um a um os tijolos das casas que edificava, sem que para tanto houvesse necessidade de qualquer cálculo matemático.

Nunca mais ouvi falar do menino que gostava de brincar de ser homem, construindo casas. E amargura-me pensar que, tornando-se efetivamente homem, não tenha conseguido fazer uma casa sequer, nem mesmo a sua.

Lembro-me perfeitamente de todos os companheiros do menino sobre quem escrevo. Um deles, impressionado com a jovial figura de um médico que passara alguns dias na cidade, brincava de imitá-lo, instalando seu consultório num pedaço do quintal onde, com inusitada dedicação, atendia à enorme clientela de bonecas doentes. Outro, vestido nas roupas da irmã mais velha, prostrava-se diante ao altar que improvisava de um caixote de madeira e, elevando com litúrgico respeito a hóstia consagrada, nada mais, que recorte de um pedaço qualquer de papelão, fazia todos curvarem-se genuflexos, após o que pronunciava palavras de um estranho latim que ele próprio improvisava, intercalando, a todo instante, o dominus vobiscum, única certeza que havia em tudo aquilo, além da indesmentível vocação sacerdotal.

Havia, ainda, além do filho de um turco que imitava a profissão do pai, sagaz negociante, a figura altiva e impetuosa do soldado, na verdade, para ele, oficial; mais que isso, autoridade, sempre a querer que todos lhe prestassem continência ou que marchassem ao som de toques de tambor que fazia sair de uma lata de banha vazia. Seu maior contentamento era prender e dar ordens de comando. Se alguém lhe desobedecesse a diretriz traçada pelo seu gênio militar, ou contrariasse qualquer regra por ele estabelecida, reagia com violência, empunhando o cassetete que sempre trazia à cintura. Interessavam-lhe muito as notícias e história de guerras ou batalhas, e muito também lhe agradavam as fotografias coloridas de soldados em desfile.

É possível que os três últimos tenham alcançado a realização de seus sonhos. Mas o engenheiro? O médico?
Do menino que ora recordo, bem viva me ficou a intensidade de seu anseio naquele natal, ao lado da triste realidade do que lhe seria inevitável. E foi preciso que o Natal chegasse com a ausência do sonho acalentado, para que começasse a melhor entender as lições da vida. É que, em vez do brinquedo desejado, com o qual seu mundo de criança ganharia dimensões diferentes, a viva presença da morte de seu pai, trazendo-lhe, em consequência, a dolorosa certeza de que a infância, inesperadamente, chegara a seu término.

Não sei, hoje, sob em que estado de espírito relembra o menino a decepção por que passou, talvez a primeira de tantas experimentadas pela vida afora. Creiam-me, porém, que não me causará qualquer estranheza se um dia encontrá-lo a brincar entre os filhos, puxando seu carrinho azul e sendo, ele também, uma criança.

(Excerto do livro de crônicas Meus Barcos Papel, lançado em 1999)

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