Maria do Leu Coari

Maria do Léu – Um perfil de mulher ou o retrato que gostaria de pintar

José Coelho Maciel

Maria Alves Ribeiro é seu nome de batismo, por cognome Maria do Léu. É uma mulher de fibra, destemida e muito querida pelo povo. Filha de nordestinos. Seu pai chamava-se José Alves Ferreira e sua mãe Maria Angélica Alves. Ele era ferreiro, ela rendeira.

Maria do Léu — que não vive ao léu — é uma mulher lutadora, intrépida e de grande popularidade. Não há ninguém em Coari que não conheça essa criatura de estranha personalidade, marcante, que promove movimentos populares e já fez 136 gravações de suas cantorias e modinhas. É compositora, repentista, cantadora nata. Entretanto, só a partir de 1964, com 40 anos de idade, é que começou a escrever e divulgar as suas produções literárias em verso, cuja temática, abrange o cotidiano político, econômico, social, histórico, sentimental e circunstancial.

Falando e escrevendo a linguagem popular ganhou a admiração e o respeito dos coarienses e o de quantos a conhecem pelo talento e espontaneidade de sua poética eminentemente popular. Maria do Léu é autodidata, demonstrando para a poesia e para a música enorme sensibilidade, que funciona como radar receptivo do seu mundo exterior, captando tudo que vê ao seu redor. Nada lhe passa que não seja percebido e filtrado pela sua ótica popular. Critica a administração pública, tece elogios aos candidatos e políticos que merecem e faz acerbas críticas à carestia, ao custo de vida, a inflação e aos exploradores do povo. É uma espécie de guardiã do povo. Se Gregório de Matos Guerra fosse vivo não hesitaria em aprová-la por sua atitude corajosa diante dos poderosos em prol dos humildes e indefesos. Muitos já sentiram o azorrague de sua pena. Na greve da água, em Coari, escreveu e cantou com o povo. Eis algumas estrofes do seu longo poema:

Prestem atenção meus amigos
pra o que vou dizer aqui
que em toda Amazônia
a água mais cara é a de Coari
e devia ser mais barata
pois não temos condições
e a daqui de Coari
é puxada do Solimões

O que está escrito é verdade
pois mentira não se escreve
como todo mundo sabe
que em Coari houve uma greve
e o povo está revoltado
e sentindo grande mágoa
como todo mundo sabe
que o problema é a falta d’água

O gerente apavorado
deu um frio chega tremia
foi parar no Hospital
dizendo estou com agonia
esta é uma verdade
não é o povo que inventa
pois a água sem multa
quatrocentos e quarenta

Se Coari tivesse emprego
a gente dava no ato
pois a água com a multa
quinhentos o vinte e quatro
aguardamos a Deus
e ao Papa João Paulo II
com o documento de Puebla
veio alertar todo mundo

Vou repetir de novo
que mentira não se escreve
e se não faltasse água
o povo não faz a greve
o gerente da Cosama
nosso amigo, brasileiro
não dá água para o povo
mas quer receber o dinheiro
A água sobe mais
que a enchente de 63
quanto mais a gente reclama
mais a aumenta para o freguês
o gerente ainda responde
que a subida é comum
esse mês eu Já paguei
seiscentos e quarenta e um
Aqui fica o meu abraço
aos amigos o companheiros
também fica o meu nome
que é MARIA ALVES RIBEIRO.

Maria do Léu é aposentada como zeladora que era do Grupo Escolar Inês do Nazaré Vieira, em Coari, mas já foi oleira, lavadeira e trabalhou em uma dezena de outras atividades — todas modestas, porém honestas — e sempre ganhou com o suor do seu rosto o pão de cada dia que sustenta até hoje os seus filhos. Dos quinze filhos que trouxe ao mundo apenas oito sobreviveram as intempéries pelas quais tem atravessado.

Mesmo assim sente-se uma mulher feliz. A sua felicidade emana do desejo sempre maior de servir o povo. Ela mesma é povo. Por isso colocou a sua inteligência e o dom que Deus lhe deu de compor e musicar as suas criações literárias a serviço do povo, sobretudo a favor da grande massa pobre e carente. E deste modo, a cantora vai fazendo os suas pequenas sátiras e canções de escárnio, de bem amar e bem-querer, como nos tempos medievais.

Maria do Léu Coari
Maria do Léu
O povo vive massacrado
E trabalhando todo dia
e sofrendo necessidade
por causa da carestia
e como diz o ditado
que o povo não tem voz
a estiva sobe mais
do que a enchente de 63

Atualmente arranjou um parceiro que lhe acompanha nas suas pelejas e cantorias. O Jovem e talentoso Raimundo de Souza Batista, nascido em Barreirinha, mas que trabalha há 3 anos em Coari como serventuário da justiça, levado para lá por dona Iacy, escrivã do Cartório do 1° Ofício. Desde então trabalham juntos e formam uma bonita dupla de cantadores. Precisam apenas de uma viola e um pandeiro para imprimirem aquela atmosfera característica dos cantadores do Sertão. Nada mais.

A cidade do Coari — Princesa do Solimões — sente-se honrada com essa figura estranhamento singular que é Maria do Léu. A minha querida cidade natal não seria tanto se não existisse essa criatura ímpar, de caráter e beleza espiritual extraordinários.

Maria do Léu — epíteto estranho para uma mulher extraordinária — simples, humilde, mas extraordinária. Como tantas outras mulheres extraordinárias que o mundo já conheceu e ainda conhece — que deram enorme contribuição à humanidade, cada uma na sua dimensão exata, a figura do Maria Alves Ribeiro aparece ao lado de Lady Godiva, Ana Nery, Anita Garibaldi, Anna Sullivan, Helen Keller, Bárbara Heliodora e muitas e multas outras que, se fôssemos relacionar, preencheríamos folhas e folhas de papel.

Maria do Léu, se vivesse no Nordeste, hoje teria o seu nome no rol dos trovadores e cantadores populares, e talvez incluída em antologias e livros sobre literatura de cordel ou popular, agora inclusive estudada em universidades de todo o mundo.

Quem sabe não estivesse figurando ao lado do Cego Aderaldo e Patativa do Assaré, hoje estudados na Sorbonne.

Manaus – 1982

José Coelho Maciel

José Coelho Maciel é filho de Coari – AM. Estudou o Ensino Fundamental em sua terra natal, o Secundário em Manaus, formando-se em Direito pela vetusta Faculdade de Direito da Universidade Federal do Amazonas. É pós-graduado em Direito do Trabalho e Previdenciário. Diplomado em Psicanálise Clínica pela SPOB – Niterói –RJ. Lecionou Prática Forense de 1971 a 1972, pela Faculdade de Direito da Universidade do Amazonas em convênio com a Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional do Amazonas, e Educação Artística, Organização Social e Política Brasileira, Educação Moral e Cívica, Direito e Legislação, e Português e Literatura Luso-Brasileira, em várias escolas estaduais da rede pública e privada. Fez parte do Teatro Experimental TESC-SESC, em Manaus, e participou do “Grupo dos Sete”. Como artista plástico, em 1964 realizou sua 1ª Exposição Individual de seus desenhos e pinturas; nos anos seguintes participou de inúmeras exposições coletivas, recebendo vários prêmios, numa delas (1970) recebeu o Prêmio Governo do Estado, juntamente com o pintor Moacir Andrade. Tem publicado artigos, poemas e crônicas, em jornais, suplementos literários, revistas e livros (antologias) desde 1964. É fundador de algumas entidades profissionais, artísticas e literárias, como a AAMAT, SPOB-AM, AMAP, e pertence, além destas, ao CEA, GEC, CM, UBE-AM, ASSEAM, ALCEAR, ALB e ABEPPA. É pintor, ilustrador, desenhista, escritor e poeta (bissexto).

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