A obra de Vasconcelos narra a luta de Zé Pedro contra as enchentes e a exploração social nos anos 40. Entre dívidas e a ilusão de Manaus, ele recusa o êxodo para manter sua dignidade. O livro foca na simbiose com a natureza, onde a vida segue o Regime das Águas, força a que o homem deve, por valores e sobrevivência, irremediavelmente obedecer.
A obra de Francisco Vasconcelos, autor nascido em Coari e membro da Academia Amazonense de Letras, não é apenas um retrato geográfico, mas uma imersão profunda na alma do homem do beiradão na década de 1940. Através da figura de Zé Pedro, o autor narra a luta desigual entre a vontade humana e a soberania do ciclo hidrológico da Amazônia, o qual dita as regras da vida, da economia e do destino.
A Várzea: Entre a Esperança e a Tragédia
O cenário principal é a várzea, onde o cultivo da juta representa a única promessa de sustento para famílias como a de Zé Pedro. O drama central reside na enchente, que surge como uma força inevitável que “dizimaria as criações e destruiriam as plantações”. Para o ribeirinho, a subida das águas não é apenas um fenômeno natural, mas um veredito econômico: se o rio subir antes do tempo do corte, a safra é “afogada”, e o trabalho de um ano inteiro se perde.

As Correntes da Exploração: Jorge Turco e a Dívida Infinita
A sobrevivência do ribeirinho é cercada por um sistema de exploração cruel encarnado na figura de Jorge Turco (ou Jorge Bagabém). Seu “flutuante” é a única instituição comercial da região, funcionando sob o regime do aviamento. Zé Pedro vive preso a um “surrado borrador” de dívidas, onde o preço dos produtos é sempre ditado pelo comerciante e o ajuste de contas nunca favorece o produtor. Essa dependência econômica é tão sufocante quanto a própria enchente, mantendo o caboclo em um ciclo de pobreza perpétua.
O Conflito Agrário e a Resistência de Tonico
A narrativa amplia seu escopo social ao abordar os conflitos de terra. O personagem Tonico, vizinho de Zé Pedro, personifica a resistência contra a expulsão dos ocupantes tradicionais. Uma “Companhia” tenta se apossar das terras ancestrais sob o pretexto de progresso técnico e criação de gado, ignorando os direitos daqueles que ali nasceram. A prisão de Tonico “como peixe na tarrafa” serve como um alerta amargo de que o poder legal muitas vezes ignora a realidade telúrica do homem do rio.
A Fé e a Comunidade: Dona Antônia e Padre Minervino
Diante da ausência do Estado, a comunidade se sustenta na fé e na tradição. Dona Antônia, a rezadeira e parteira, é a autoridade que cura os males do corpo e do espírito, como ocorre com Joana, esposa de Zé Pedro. Já o Padre Minervino atua como o guia moral que tenta mediar os conflitos entre a resignação cristã e a revolta contra as injustiças sociais, lembrando que “os lobos vestidos de cordeiro” estão sempre prontos para atacar os indefesos.
A Miragem de Manaus e a Decisão Final
A obra estabelece um contraste agudo entre a vida no rio e a “ilusão urbana”. Manaus é apresentada por personagens como Neco Anzolim como um paraíso de “emprego fácil” e modernidade, simbolizado pela futura Zona Franca. No entanto, Vasconcelos revela a outra face dessa promessa: o êxodo rural frequentemente termina na periferia miserável da cidade, onde o sorriso “há muito se escondera”.

No clímax da obra, Zé Pedro, após ser tentado pelas facilidades da cidade e pela zombaria do atravessador Joca, reafirma sua dignidade. Ele recusa um brinde superficial e decide permanecer inteiro em seus valores, compreendendo que o homem amazônico, embora pareça “quase nada”, encontra sua grandeza ao aceitar sua simbiose com a natureza.
Moral da História: A lição final de “Regime das Águas” é que a verdadeira liberdade não está na fuga para as promessas ilusórias da cidade, mas na aceitação consciente da própria identidade e na resistência dentro do seu território. O homem ribeirinho é um ser de obediência irremediável ao rio, mas é nessa obediência que ele preserva sua autonomia moral frente à exploração dos homens.
Analogia: O destino do ribeirinho é como o crescimento da própria juta: ele precisa mergulhar profundamente na água e enfrentar o peso da correnteza para que suas fibras se tornem fortes e valiosas. Sem o rio, ele perde sua essência; com o rio, ele enfrenta o risco, mas mantém sua raiz.
Ouça um podcast sobre o livro:

Biografia de Francisco Vasconcelos
Francisco Marques de Vasconcelos Filho, amazonense de Coari, realizou o curso fundamental em sua cidade natal. Aos dezesseis anos, transferiu-se para Manaus, onde concluiu o antigo curso secundário no Colégio Estadual do Amazonas, então denominado Colégio D. Pedro II.
Em 1961, formou-se em Direito pela Faculdade de Direito do Amazonas, integrando a turma Legalidade. Esta designação homenageava o movimento cívico que empolgou o país — especialmente a juventude estudantil — na luta contra o arbítrio que ameaçava a incipiente democracia brasileira, ao tentar impedir a posse do vice-presidente constitucionalmente eleito. Cabe registrar que, nesse mesmo ano, concluiu sua segunda gestão na presidência da União Estadual dos Estudantes, circunstância que o levou a atuar como um dos líderes, em Manaus, da mencionada luta pela Legalidade.
Ingressou, por concurso público, no Banco do Brasil em 1956, instituição à qual dedicou mais de três décadas de serviço. Nela exerceu diversas funções comissionadas, incluindo as gerências de Parintins e Tefé, em missões extraordinárias.
Em 1970, transferiu-se de Manaus para a Direção-Geral do Banco, em Brasília, onde atuou como Assistente Técnico e Chefe de Gabinete da Gerência Regional de Operações da Amazônia (GERAM). Com a criação das Superintendências Regionais de Operações, em 1979, foi nomeado o primeiro Superintendente Regional do Amazonas, com jurisdição até Roraima. Permaneceu nessa função até 1985, quando foi transferido para desempenhar o mesmo cargo na Superintendência do Pará/Amapá, onde permaneceu até 1987. Retornou, então, a Brasília, para chefiar o Gabinete da Vice-Presidência de Operações no País.
Aposentou-se em 1992. Mesmo após encerrar sua carreira no Banco do Brasil, foi convocado para atuar no Serviço Público Federal, onde exerceu as Chefias de Gabinete da Secretaria Nacional dos Direitos da Cidadania e Justiça, do Ministério da Justiça, e da Corregedoria-Geral da Advocacia da União.
Paralelamente à sua destacada atuação profissional, Francisco Marques de Vasconcelos Filho sempre manteve forte vínculo com a vida sociocultural do Amazonas. Foi presidente do Clube da Madrugada (1964/1965), instituição considerada um marco histórico nas letras e nas artes amazonenses.
Sócio fundador da UBE Amazonas, publicou as seguintes obras:
Em 2010, foi agraciado com a Medalha do Mérito Cultural Péricles Moraes, concedida pela Academia Amazonense de Letras, instituição para a qual foi eleito membro. Tomou posse em 30 de setembro de 2011, ocupando a Cadeira nº 40, cujo patrono é o poeta e filólogo Paulino de Brito.
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