Zeca-Dama – Erasmo Linhares

Zeca-Dama – Erasmo Linhares

Não, senhor, desarme essa cara de malícia. Não é nada do que o senhor está pensando. Sou macho e muito macho. Até hoje o cabra que duvidou disso, levou o troco certo na hora. Mais »

A Freguesia de Alvelos

A Freguesia de Alvelos

O assobio rasgou duas vezes a mata e veio se repetir bem perto de onde nós estávamos. Na cozinha, Maria José preparava um cozidão daqueles. “Caparari” salmourado com bastante verdura Mais »

 

As Origens da Cultura e do Festival Folclórico Coariense (Parte 01)

 

Archipo Góes

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 A cidade de Coari, localizada no centro do Amazonas, a margem do lago de Coari, teve a primeira expressão de sua cultura em 1542, com a viagem de Francisco Orellana, que possivelmente foi a primeira viagem documentada de um europeu pelo Rio Amazonas. Seu cronista, o Frei Gaspar de Carvajal dissertou que os indígenas da tribo dos Jurimáguas, próximo a Coari, fabricavam uma cerâmica de alta qualidade que ele destacou como a “melhor que se viu no mundo, porque a de Málaga não se iguala, por ser toda vidrada e esmaltada de todas as cores”.

A cultura coariense resulta da conjunção de muitas influências das contribuições dos indígenas. Podemos observar que, os indígenas que habitavam a região do município de Coari, os Jurimáguas, Jumas, Walpés, Muras, Catauixis, Irijus deixaram influências até hoje, na culinária (alimentação), nos utensílios domésticos, no artesanato, nas vestimentas, na toponímia (nome dos lugares), na onomástica (nomes próprios), na língua, nos costumes, no tratamento de saúde utilizando as ervas medicinais, e finalmente, no modo de viver do coariense.

No ano de 1895, aconteceu a primeira expressão da Literatura Coariense, a criação do jornal “O Coaryense” com notícias, contos e crônicas semanais sobre o modo de viver em Coari no final daquele século. O proprietário e redator daquele periódico foi o senhor João Joaquim Mendes da Rocha, que também era dono de uma farmácia. Era feito em uma prensa rudimentar com tipos romanos e era confeccionado com auxílio de um único funcionário. Esse periódico era sempre impresso e distribuído nas quintas-feiras com matérias com um texto bem casual e provincial.

Jornal Semanal: “O Coaryense” – 1895

 

 

Filarmônica Municipal Coariense – 1908

 

A partir de 1927, com a chegada em nossa cidade do Capitão Alexandre Montoril, que foi prefeito três vezes, incluindo o período na intervenção da era Vargas (1939-1947), passamos a conhecer a Literatura de Cordel, uma vez que, Montoril que, além de ser odontólogo, era poeta e repentista cearense, primo de Patativa do Assaré. Nas tardes de sábado costumava declamar seus versos em sextilhas de cima do coreto Municipal, onde seus correligionários ovacionavam sua apresentação.

Alexandre Montoril

 

Na Década de 50, podemos observar o surgimento do primeiro folguedo junino coariense, o Boi-Bumbá Prata Fina. Foi criado em 12 de junho de 1953, sob a coordenação do Senhor Benedito de Lima Nogueira, conhecido como Seo Ioiô, residente na rua 05 de setembro, conhecida pelos mais antigos como Rua Nova. Durante 28 anos contínuos, ele levou seu boi-bumbá pelas ruas da cidade, alegrando e divertindo a todos. Costumava se apresentar nos terreiros em frente das casas onde era convidado.

Seo Ioiô confeccionava seu boi-bumbá, do começo ao final. Com a ajuda de suas filhas na composição dos detalhes e na parte da costura, porém, todo o acabamento era realizado cuidadosamente por ele. Era mantido a tradição nordestina em que a cabeça tinha como estrutura base a carcaça de um boi morto. A confecção do boi-bumbá, os ensaios em sua casa, e a apresentação na frente das casas dos moradores mais ilustres eram comandadas por seu Ioiô.

  Benedito de Lima Nogueira – Seo Ioiô

Os personagens emblemáticos dos folguedos do Boi-Bumbá Prata Fina foram o senhor Guariba que representava o chefe da tribo indígena e o senhor Jonas, filho do Seo Ioiô, que dançava como tripa do boi[1].

Edinilson Cavalcante comenta:

As crianças vibravam com a festa, entretanto, tinham muito medo, pois os personagens Catirina e Cazumbá, devidamente mascarados, corriam atrás da garotada para cheirarem o traseiro do boi. Qual a criança que não ficava apavorada pela possibilidade de ser levada pelos mascarados para cheirar parte tão íntima do boi?

Raí Letícia:

Também lembro muito bem quando o Boi do Sr. Ioiô vinha dançar em frente à casa do Sr. Dimas, embaixo da árvore de flamboyant que até hoje existe. Nunca esqueço deste tempo. Aliás, de toda a minha infância que foi muito bem vivida. E uma das coisas inesquecíveis era esta época de festa junina que tinha o Boi do Sr. Ioiô. Lembro muito bem que o vovô juntamente com o Sr. Dimas, tio Jacó e outros chamavam o Prata Fina pra brincar aqui em frente e
tinham que colocar dinheiro na língua do Boi. E esta “língua”, lembro como se fosse hoje, era uma caixa de tubo de linha de costura que eles abriam e quem convocava o boi e tinha “cacife” colocava o pagamento dentro da língua
.”

Um trecho de uma toada do boi-bumbá Prata Fina que todo coariense nascido nessa época não esquece:

Lá vai, lá vai, lá vai boi pra quem quer ver♫

♫Lá vai o Prata Fina fazendo a terra tremer♫

 

Boi Bumbá Prata Fina


[1] Brincante que veste o boi de pano e faz a evolução do boi-bumbá; pessoa que brinca em baixo do boi, responsável pelos movimentos durante a apresentação.

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